O belo no imprevisível
- 11 de jan. de 2023
- 2 min de leitura
Atualizado: 12 de jan. de 2023

Comprei um livro de filosofia estoica recentemente, um livro impecável.
Deixei em cima da mesa, enquanto eu fazia outras atividades pela casa, e quando eu voltei as três primeiras páginas estavam rasgadas.
Eu tenho duas gatas em casa e uma delas é inquieta, nós a chamamos de Cometa.
Ela faz jus ao nome. É acelerada! Um dia desses, ela mexeu no livro e eu não estava por perto. E eu sei que essa artimanha era obra dela, porque a minha outra gata é extremamente pacata. O nome dela é Camomilla, e também faz jus ao nome. Quando eu vi o livro rasurado, eu senti uma calmaria. Estranho, não é?
Se esse episódio do livro e ocorresse há uns meses, a minha reação seria outra.
Eu trabalho na empresa da minha família, e lá criamos mais duas gatas.
Acontece que, recentemente, uma delas morreu e o meu coração ficou partido.
Quem já perdeu um pet sabe que a dor é grande!
O nome dela era Margô, ela era minha melhor amiga, e minha alma gêmea.
Seu abraço era espontâneo, e se eu a segurava em frente ao meu peito, o coraçãozinho dela disparava. De alguma forma, ela ficava ansiosa e dava impulso para que eu a abraçasse. Era único!
Enfim, aquilo era um remédio diário, sabe?
A Cometa, a minha outra gata que despedaçou o livro, sempre me trouxe a sensação de desafio emocional.
Com ela, a minha paciência era mínima.
Acredito que seja essa falta de controle que sentimos, que na verdade é uma ilusão.
Os maiores impactos e acontecimentos da vida, nós não controlamos.
Depois do luto, eu passei a enxergar esses detalhes com outros olhos.
Paciência é sim uma virtude daqueles que praticam a aceitação, e que reconhecem que um dia comum é um dia único.
As curas diárias estão nos olhares simplistas, sem ego, sem insatisfação, sem expectativa. É aquilo, é aquele momento, do jeito que é.
E isso me lembrou muito uma filosofia Japonesa, a Wabi Sabi.
Wabi Sabi é ver beleza nas vivências de alguém ou de algum objeto.
Por exemplo, o meu livro rasgado, além do conteúdo nele escrito, tem uma história de vida nele, como objeto, para contar.
Algo está feito, e não pode ser refeito.
Um corpo envelhece, uma pele leva uma história de vida nela.
Um corpo perfeito, uma doença, uma mudança. Uma cura, outro corpo, outra pessoa.
Todo processo, seja físico ou emocional, traz ineditismo e evolução, e é onde mora a perfeição, no imperfeito.
A Margô me ensinou o amor incondicional e o amor sem orgulho.
A Cometa me ensina o imprevisível. Eu a amo!
O luto é o luto.
É a troca de pele.
É a outra versão.
Wabi Sabi é o renascimento e a imperfeição.
É receber a vida como ela é e enxergar o belo sem esforço.
Vendo por este ângulo, o meu livro é mais bonito agora.



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